
Post dois, dia 31 de maio de 2010.
Onde mora a informação?
O que significa informação? Fui buscar a palavra no dicionário e como quase tudo vem do latim. Significa delinear, conceber uma idéia. Exatamente o que precisava ouvir, pois neste momento estou delineando uma idéia, concebendo uma viagem que ainda não me dá a segurança de poder afirmar se é possível realizá-la. Para eu poder ter segurança em partir preciso de muitas informações, e pergunto, onde mora a informação?
Muitas vezes no nosso focinho. Achamos que ela esta distante, ou podemos ter a crença de que ela nem existe, mas com um pouco de insistência e criatividade podemos encontrá-la.
O navegador moderno não se debruça mais somente sobre mapas como faziam os grandes navegadores antigamente, pois hoje temos uma poderosa ferramenta a disposição de todos, a internet. Hoje temos todas as cartas digitalizadas e com um clique pode-se ver com detalhes qualquer entrada de baia no Mar de Bering por exemplo. A informação esta disponível para todos, e isso é muito democrático.
Para a minha atividade o Google Earth é uma das mais geniais ferramentas e pela tela do meu computador aqui em pleno bairro do Itaim tenho viajado longe, passo horas navegando em águas geladas, explorando vilarejos no Ártico, pesquisando sobre passagens e a anatomia de praias que espero um dia pode pisar. Através do Panoramio, site de fotos do Google Earth pode-se ver o que viajantes do mundo todo postaram nos lugares mais improváveis do planeta.
Como todos sabem que gosto mesmo é de navegar no mar e com um pouco de sorte pode-se ir bem longe. Isto é o que tem se repetido pelos últimos anos. Agora na net navego atrás de informações e foi o que aconteceu comigo há alguns dias atrás.
Procurando por expedições polares na Passagem Noroeste descobri várias viagens de veleiros que disponibilizam em seus sites fotos, diários e mapas. Para mim que quer viajar por uma região tão distante da nossa ficaria bem difícil levantar informações e não fosse a internet ia demorar muito mais. Do jeito antigo teria que comprar livros, cartas náuticas e Cartas Piloto (são informações sobre ventos, correntes, acidentes geográficos documentados em um livro).
Continuei minha pesquisa e descobri uma viagem que foi começada no ano passado e será recomeçada em julho de 2010. O que me chamou a atenção é que os dois ingleses que se aventuram pelo norte estão usando um barco a vela sem cabine e com remos, algo bem parecido com o quero usar visto pelo aspecto da rusticidade da viagem. Apesar da viagem deles ser apenas um pequeno trecho da nossa, eles estão passando por uma região muito crítica, talvez uma das piores, pois tiveram que enfrentar águas congeladas, foram obrigados a arrastar o barco por cima de banquisas de gelo, dormiram acampados em praias ermas, tiveram a companhia de ursos polares e ficaram expostos ao frio intenso.
Mandei um e-mail para o Kevin Oliver, um dos tripulantes e o e-mail voltou. Fiquei vários dias tentando outra forma de contato sem sucesso. Um dia à noite acordei pensando neles e dei um pulo da cama. Tive a idéia de procurar o fabricante do barco e tentar saber se ele tinha o contato do Kevin. Deu certo e o Kevin Jeffrey fabricante do NORSEBOAT copiou o Kevin Oliver me apresentando. Em cinqüenta e quatro minutos recebi um caloroso e-mail do navegador inglês. Como havia me apresentado ao fabricante do barco enviando um link do meu site e explicando as minhas intenções e justificando porque precisava falar com o Kevin, fui logo reconhecido como alguém da sua família, outro velejador sedento por explorações no Mar do Ártico.
O que eu não esperava era falar com uma pessoa que esta no meio da guerra do Afeganistão. Ele ainda se desculpou por não ter uma conexão de internet muito boa e também não poder ficar mais tempo comigo discorrendo sobre as dificuldades da sua viagem. A segunda surpresa veio no anexo da mensagem, o seu projeto com todos os detalhes do estudo e tudo que foi observado durante os quarenta e dois dias de viagem no Ártico.
Posso dizer que em dois e-mails deu para sentir quem é o Kevin. Não tenho dúvidas que ele faz parte das pessoas generosas que tenho tido a felicidade de encontrar pelo caminho. Com este documento em mãos comecei a pensar a logística da viagem com mais precisão. Ajudou-me a começar a responder as dezenas de perguntas que tenho que responder para mim mesmo. A viagem começa e se delinear de maneira mais concreta.
Hoje estou fazendo um levantamento da média de temperaturas para os meses do verão, as médias de força e direção de vento e o mais importante, o movimento do gelo. Pelo histórico o mês de julho é quando a passagem começa a se abrir e setembro é quando volta a fechar.
Agora tenho um amigo no Afeganistão e quando ouço alguma noticia sobre ataques de Talibãs penso no Kevin. Ele me confessou que estar lá é o oposto da liberdade e que quando ele voltar ao norte em julho ele novamente estará no seu barco livre para navegar.
Abraço a todos.
Beto Pandiani
Comentário Lúnica ao Post 2 – Blog do Beto
Lidar com (a gestão das) informações é de crescente interesse empresarial e, mais e mais, existem áreas organizadas para esse fim (nomeadas de inteligência competitiva ou de mercado). O trabalho tende a ser multidisciplinar e organizado sob diferentes formas, mas o fato é que é imperativo lidar com o tema em tempos de ambiente de negócios mais turbulento e com a miríade de informações que se apresenta disponível.
Uma das ferramentas mais utilizadas é o chamado ciclo de inteligência, que inicia pela desafiadora atividade de definir as necessidades de informação (muitas vezes priorizadas a partir das decisões que devem ser tomadas – tomada de decisão será tema abordado oportunamente nesse blog). Posteriormente parte-se para etapas de: coleta, análise e disseminação das informações. Por fim, avalia-se como o processo ocorreu, visando aprimorar o ciclo (em linhas gerais, lembra, com outro propósito, o ciclo PDCA muito comum em áreas de qualidade http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclo_PDCA).
O post do Beto indica, de forma interessante, diversos elementos da etapa de coleta de informações, tais como a busca em diferentes frentes, a checagem (cross check) de informações e o conhecimento das fontes. Depois, a insistência que acaba por levar ao ““insight” relevante (“Um dia à noite….dei um pulo da cama. Tive a idéia de procurar o fabricante do barco”), no caso ao precioso documento do Kevin. Fiz questão de vê-lo, documento de 18 páginas, detalhando: equipamentos/tecnologias, recursos utilizados, mapas, informações climáticas, cronograma, funding do projeto. Adicionalmente, conta com um interessante “anexo B”, nomeado “risk assessment”, onde se detalham16 riscos principais e respectivas medidas mitigadoras.
Um documento desses será fonte de apoio para diferentes decisões no projeto do Beto. Isso é comum: ao procurarmos um tipo de informação, podemos encontrar algo maior! Nesse momento, ter prioridades definidas permite responder, onde mais (e quando) esse tipo de informação será útil?
Quando vi Beto lidando com o Google Earth pela primeira vez, me veio à cabeça um filme desenvolvido na década de 60, e divulgado pela IBM, para apresentar o que era visão sistêmica, chamado Powers of 10 (http://www.powersof10.com/). Guarda grande relação com o uso da ferramenta que permite, em segundos, passar da visão do todo (olhar todo o Ártico, por exemplo), para o foco em detalhes relevantes (passagens mais desafiadoras, praias para parada do barco…). A capacidade de olhar o todo e, escolher partes específicas para focar, é uma competência fundamental do bom decisor (ou do bom empreendedor).
O tema “gestão de informações” vale esforço e atenção, pois é terreno em que nos perdemos facilmente. Enquanto, às vezes, com pouco esforço (organizado!) e ferramentas simples (e baratas, como o Google Earth) podemos aproveitar o que temos à mão (“em casa”) gerando inteligência valiosa para tomada de decisão.
Ricardo Altmann
Lunica Consultoria
Luciana Yumi Taniguti disse em 04/jun, 02:53
De fato, a internet é uma ferramenta poderosa para acessar informações, porém excesso de informação pode atrapalhar ao invés de ajudar.
Aquele que realiza a pesquisa e analisa as informações encontradas deve primeiramente saber COMO pesquisar e isso pode fazer toda a diferença na qualidade da informação. Nem sempre o “como” está claro e por isso a experiência ou a opinião especializada podem fazer a diferença. Depois de transpor este primeiro desafio, é necessário DISCERNIR as informações ou separar o “joio do trigo” e novamente a experiência é importante, porém, ter claro os objetivos antes de ” navegar” ajuda a direcionar as decisões neste processo.
Que viagem! Acabei de me tocar que o próprio levantamento das informações em si pode ser uma grande aventura, cheio de desafios e que exige persistência!
Beto, muito obrigada por compartilhar o seu processo conosco.
Ricardo, estou atenta aos comentários Lunica. Muito obrigada pelas dicas, estou olhando todos os temas levantados por vc.
Abs!