Texto: Ana Augusta Rocha
Fotos: Gui Von Schmidt
Havia 150 dias que a vida deles era o cerceado de um pequeno veleiro na vastidão do mar. Sal, sol, céu. Sal, sol, céu, chegar e partir de tantos lugares, que já haviam perdido a conta. Saíram de Miami no dia 24 de fevereiro e atravessaram as Bahamas e o Caribe. Fizeram a última travessia de mar grande, entre a ilha de Granada e Trinidad e Tobago, entraram na Boca do Dragão, que um dia deslumbrara Colombo por seu costão inóspito e por suas águas calmas. Depois eram os rios e a Venezuela que os chamava.
Pois lá foram: seguindo os caminhos do naturalista Alexander Von Humboldt em 1800, desceram o canal de Casiquiare, tendo deixado para trás o rio Orenoco, o principal da Venezuela. Milagre da geografia, o canal de águas barrentas, pouco a pouco se escurecia, evidenciando a existência, única no mundo, de uma interligação de duas grandes bacias hidrográficas - a Amazônica com a do Orenoco. O Casiquiare ali já mostrava toda a influência do rio Negro e de seus tributários. Já haviam deixado para trás o perigo da guerrilha colombiana e os isolados ianomâmis. Passavam as curvas do rio e a ansiedade ficava. Cada vez maior. O motor marcava o compasso ou era o coração que batia? “A bandeira, a bandeira!”, um deles gritou tão alto que os passarinhos nas copas voaram para ver. E todos se calaram por alguns segundos, tremulando, eles. Verde, amarela, azul e branca, estava presa em pendão tão alto quanto as árvores amazônicas. Eles estavam chegando em casa. Pela porta dos fundos.
Até ali já havia se passado meio ano de viagem, outro antes de planejamento e muitos anteriores de sonho. Marcos Sulzbacher velejava desde a infância e já havia participado de algumas expedições, nenhuma tão longa. Roberto Pandiani era velejador de regatas e tinha um título norte americano na categoria hobie cat, o mesmo tipo de barco que navegavam agora. E isso era o que mais espantava as pessoas que encontravam no caminho: para um percurso tão longo e com trechos tão difíceis, eles não possuíam barcos especialmente desenhados. Tal qual velejadores de fim de semana ou esportistas que saem para jornadas curtas, eles partiram para realizar 13 mil km. Do Trópico de Câncer [Miami - EUA] ao Trópico de Capricórnio [Ilhabela - SP]. Verdade que existia uma boa dose de tecnologia, abrigada dentro das enormes baja-bags [malas impermeáveis] que eles traziam no bojo dos barcos: um GPS [Global Position System], um lap top com comunicação, via satélite e um sistema à prova d’água que, em caso de emergência, emitiria freqüências captadas por um consórcio de satélites russo/americano COSPAS/SARSAT, que por sua vez enviaria o pedido de ajuda à marinha do local onde estivessem. Isso, sem falar na comida liofilizada e balanceada. Eram astronautas viajando em jangadas modernas.
Viajaram como no tempo das caravelas, dependendo do vento, temente às ondas e sabendo dos monstros que rondam as grandes travessias: o medo, a exaustão, a vontade que se deriva. Tinham uma clara desvantagem em relação aos primeiros navegantes: o porte de seus barcos não permitia que pernoitassem no mar. Mas a noite muitas vezes insistiu em chegar, fazendo-se avisar primeiro que a terra. A primeira vez que isso aconteceu - estavam próximos a Tures and Caicos, nas Bahamas - pararam no interior de um banco de corais, onde águas calmas embalariam o descanso. Betão teve o casco de seu barco rasgado. O veleiro só não afundou porque contava com um sistema de flutuação especial. Dali para frente assumiram que a parada era só em terra. Muitas vezes chegaram a viajar até por 48 horas, ininterruptamente, se revezando com os companheiros de barco, entre o leme e o velame e o desgoverno dos sonhos. Se é que é possível dormir em meio ao chacoalho das ondas.
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